É possível formar leitores?

Nesta  entrevista para Folha de São Paulo, Ana Maria Machado coloca pontos importantes na formação de leitores desde a juventude.  Muito interessante.

FABRÍCIO GERARDI
THIAGO BLUMENTHAL
Colaboração para a Folha Online

A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano contará com a presença, entre outros grandes nomes, da ocupante da cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, que tem mais de cem títulos em sua carreira e recebeu o Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante da literatura infantil. Ela falará à mesa 18, no domingo, 6, acompanhada de Luiz Fernando Carvalho e Sérgio Paulo Rouanet a respeito de Machado de Assis, o homenageado da 6ª edição do evento literário.

Marco Antônio Rezende/Folha Imagem
A escritora Ana Maria Machado, que participa da 6ª edição da Flip
A escritora Ana Maria Machado, que participa da 6ª edição da Flip

Em entrevista à Folha Online, Ana Maria Machado disse acreditar que o público infantil, ao qual dedica grande parte de sua obra, cresceu bastante desde o seu primeiro livro, publicado em 1976. Para ela, o mercado editorial é diverso, mais amplo –a diferença hoje é que ela não vê mais o exemplo do leitor adulto, que serviria de estímulo e guia à criança.

Além de falar da importância dos clássicos e relativizar a crítica geralmente feita a Harry Potter, no universo infantil, a autora fala sobre a importância da Flip e da Flipinha [versão do evento voltado às crianças].

Leia entrevista concedida à Folha Online, em que trata especialmente de literatura infanto-juvenil e do seu papel dentro do mercado editorial hoje.

Folha Online – Parte extensa de sua obra é destinada ao público infanto-juvenil. Desde o seu primeiro livro voltado às crianças, o que mudou no mercado editorial? Que relação as crianças de hoje têm com a leitura?

Ana Maria Machado – Ah, mudou muita coisa. Meu primeiro livro para crianças é de 1976. Naquela ocasião, no mercado editorial praticamente não existia um segmento voltado para o público infantil. Hoje ele é significativo e poderoso. Havia espaço para editoras pequenas, dispostas a experimentar e correr riscos: a criação autoral era fundamental, porque autores é que garantiam a originalidade e atraíam leitores. Hoje, com as aquisições e fusões e com a concentração, desenvolvem-se grandes grupos, muitos deles estrangeiros, e isso tende a fazer pressão para haver homogeneização e os livros ficarem muito parecidos, além de lançados com estratégias mercadológicas comparáveis.

Hoje mais crianças estão lendo no Brasil, tanto pelo aumento da alfabetização e escolarização quanto pelas várias políticas de apoio governamental (em nível federal, estadual e municipal) que há uns 15 anos vêm adquirindo títulos para bibliotecas escolares ou distribuição aos alunos. Mas os professores delas lêem muito menos, da mesma forma que os jornalistas atuais. Então surgem problemas diferentes. Entre eles, o de que não há tanto exemplo de leitores adultos. E não se contagia o adolescente com o entusiasmo pela leitura, apenas se “incentiva o hábito” na escola.

Folha Online- A senhora ocupa atualmente a cadeira 1 da Academia Brasileira de Letras. Fale sobre os escritores com cadeira na ABL com obra dedicada à literatura infantil; essa relação seria sintomática de uma vertente no país?

Machado – Há e houve muitos escritores na ABL que escreveram para crianças e jovens. De Viriato Correia e Olavo Bilac entre os antigos, passando por Orígenes Lessa e Rachel de Queiroz entre os mais recentemente desaparecidos, e pelo menos 12 autores de livros infantis entre os atuais membros. A vertente da literatura infantil é super desenvolvida no país, todo mundo escreve para crianças.

Quando algum grande escritor não escreve para essa faixa de público, os editores selecionam alguns títulos seus, ilustram e lhe dão uma roupagem destinada a essa faixa etária –de Machado de Assis a Drummond, de Guimarães Rosa a Rubem Braga. É uma característica brasileira: ao contrário de outros países, aqui todo mundo quer escrever para crianças ou publicar para crianças.

Folha Online – “Como e por que ler os clássicos universais desde cedo?” e “Alice e Ulisses” são dois títulos que aludem a grandes obras da literatura. Como a senhora hoje encara a divulgação desses clássicos frente a um mercado que cada vez mais investe na chamada literatura comercial que tem hoje em Harry Potter seu máximo expoente?

Machado – O primeiro livro meu que você cita é todo dedicado a essa questão, fica difícil repetir em poucas palavras. Mas tento resumir: os clássicos são uma herança da humanidade e todos nós temos direito a uma parte desse legado, não podemos deixar que ninguém tire isso de nós.

O segundo livro é um romance, a história de amor entre um homem casado e uma mulher descasada. Como Ulisses, ele quer todas as aventuras, mas só pensa em voltar para casa. Como Alice, ela visita um país das maravilhas e quer experimentar tudo. O livro não faz a divulgação desses clássicos, apenas conta um encontro e uns desencontros. Mas quem conhecer as histórias, pode apreciar muito melhor. Como costuma acontecer sempre, com a literatura, arte em que um livro conversa com outros.

Não acho que Harry Potter seja o expoente máximo de uma literatura comercial. Apenas, uma leitura de entretenimento, o que não tem nada demais. E também essa série será apreciada muito melhor por um leitor que conheça obras com as quais ela dialoga –das lendas do rei Artur e o mago Merlin aos contos de fadas ou aos romances de formação (que nos fazem acompanhar o crescimento de um personagem ao longo de sua juventude).

Folha Online – Apesar do devido reconhecimento obtido pela produção infanto-juvenil, a senhora já foi também premiada por livro adulto. Como encontrar a linguagem adequada tanto para um público como para o outro?

Machado – Não sei, não me preocupo com isso, apenas vou escrevendo com igual nível de exigência. Talvez o segredo todo esteja em não me preocupar com o tipo ou idade do público na hora de escrever, apenas com a linguagem e a estrutura narrativa que aquela história exige.

Folha Online – Eventos como a Flip e a Flipinha ajudam a nortear a atual produção literária no país e no exterior, incentivando a cultura do livro aos adultos e às crianças. Comente como tais iniciativas podem de fato despertar o interesse pela leitura.

Machado – Não sei se ajudam a nortear a produção literária. Sinceramente, espero que não. A criação da literatura com certeza se rege por outra pauta. Mas sem dúvida esses eventos ajudam a divulgação e o consumo da produção editorial. Sem eles, a mídia quase esquece que livro existe. Então feiras, bienais, festivais literários cumprem hoje essa função: lembram aos pauteiros e editores de jornais, revistas e telenoticiários que de vez em quando se pode também falar em livros, leitores e autores. Com isso, podem ajudar a despertar o interesse pela leitura em quem não teve chance de já ser acostumado a conviver com ela.

E a prova de que as pessoas estão ávidas por mais informação nessa área está nas multidões que são atraídas por esse tipo de evento, no público certo que os escritores costumam encontrar em cada palestra ou mesa-redonda que fazem em qualquer ponto do país, a qualquer pretexto, mesmo quando não são convocados por um espetacular sistema de marketing. Nossa escola não cumpre seu papel, a educação brasileira é uma calamidade, mas o público quer saber mais. E corre atrás de toda oportunidade, numa sede de conhecimento comovedora. Nesse contexto, as feiras e festivais têm uma função social considerável num país como o nosso.

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